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Marionetes sexuais

Morar sozinho. Assim como ter barba, eu sonhei um dia. Ambos quando chegaram, reclamei. É o que a gente faz com tudo que deseja. Dizia Nelson Rodriques que o desejo é triste. Como não concordar? O prazer da independência acaba na primeira sexta-feira fria. A solidão se junta à louça suja como fiel escudeira. A penumbra se instala. Meia luz, meia consciência.

Ao bar ao lado me lanço. É a roleta russa da noite. Oito ou oitenta. A volta para casa reserva apenas duas possibilidades radicais: companhia efêmera ou ainda mais solidão. É preciso ter coragem para apostar. E eu tive. Ao chegar, pouca luz. Minhas pupilas dilatam. São meus olhos se acostumando. Minha mente acompanha o processo de adaptação e me situa que, diferentemente das boates onde as pessoas se escondem atrás de sorrisos falsos e muita maquiagem (a melhor das mentiras), aqui é preciso diminuir a luz. Trata-se da máscara dos adultos, é preciso esconder as expressões, na maioria das vezes, sofridas. Meia luz, pouca lucidez.

Percebo também que sou mais corajoso que os companheiros. As pessoas aqui estão com roupas sociais. Saíram do trabalho direto para cá. Faltou-lhes coragem para enfrentar o lar numa sexta-feira, ainda que rapidamente. Mas também não posso reclamar, aquela mulher lá do outro lado, linda, não poderia estar em uma roupa mais atraente. Salto alto, saia e blusa social. Como não olhar? Meia luz, o brilho contrasta.

Deslumbrante, ela transforma uma simples ida ao balcão em espetáculo. Ao voltar, senta-se estranhamente sozinha. Ela, sem perceber, vai derrubando as justificativas da minha timidez para não ir até lá. Preciso ainda da última. Um olhar, um sorriso, um gesto. Parecendo ouvir, ela retribui meu olhar com um sorriso e levanta sua taça de vinho. A combinação me pressiona. Estou masculinamente obrigado a ir até lá. Meia luz, meia expressão, graças a Deus!

Meio hesitante, chego. Cumprimento e descubro seu nome. Um avanço. Rapidamente ela revela que sofre pelo término de um namoro de 9 anos. Neste tempo, a bolha densa do relacionamento fez com que ela perdesse as amizades. Hoje, está sozinha. Entregue. O relato dela me atinge. Sem compreender uma palavra, eu digo que entendo. Meia luz, meia verdade.

Poucas taças e horas depois, sem me lembrar do roteiro, estamos em minha casa. Famintos. Famintos de afeto, de arranhões, de palavrões, de sexo. Ela mesmo arranca sua roupa tão ferozmente que chega a rasgar a saia. Deliro. Ao chegar nos saltos, agarro com firmeza seu punho e impeço que ela os tire. Ela entende e sorri. Com a ansiedade de um garoto virgem, mergulho. Ela sobre mim reina como uma rainha absoluta. A cena me entorpece e puxo com violência seu cabelo. Anestesiada, ela geme e confunde meu nome. Ao invés de me assustar, ela me liberta de culpa. Eu também não estava transando com ela. Meia luz, muitos nomes.

Eu até estava confortável com a culpa. Era o único sentimento que me ligava à ela. Exploramos todas as formas de sexo. O esgotamento físico chega. Embora ainda reste fôlego para que ela balbucie a reclamação feminina mais doce: “você embaraçou todo meu cabelo”. Nua, ela anda pela casa emitindo o som mais feminino que existe: o salto combinado com a madeira. Panturrilha marcada, o balé dos quadris e o cabelo esvoaçante. Por um minuto ela parece ser a mulher da minha vida. Mas só por um minuto. Meia luz, meio devaneio.

Ao voltar, ela aparenta ter pressa. Enfrentando um furacão interno, não sei se clamo para que ela fique ou se primo pelo sexo sem compromisso. Sem muito tempo para pensar, decido para que ela vá embora. A superficialidade é o melhor caminho quando estamos confusos. É lavar as mãos, não arriscar. Antes de abrir a porta por conta própria, ela retorna e revela que toda a história do ex era uma grande mentira. Na verdade, ela nunca transou com nenhum homem por mais de um vez. “Eles me entediam”, disse ela, emendando: “vocês são minhas marionetes sexuais. Uma contingência apenas”. Extasiado com a independência da moça, suplico por um telefone, um contato. Ela responde com um beijo na testa, desliga o interruptor e encerra: “Eu sou quem você não pode ter. Não se apaixone. Você vai me encontrar na cama do seu amigo”. Sem luz, sem qualquer rumo. Eu, é claro!

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